Skip to main content
Publicaciones

O trabalho do luto e os ritos coletivos

By 19 marzo, 2021julio 28th, 2021No Comments

BARBARA  DE SOUZA CONTE (Brasil)
Psicoanalista. Doctora en Psicología por la Universidad Autónoma de Madrid. Miembro de Sigmund Freud Asociación Psicoanalítica de Porto Alegre. Coordinadora del Proyecto SIG Intervenciones Psicoanalíticas. Asesora externa de TeCMe.

As falas do livro A desumanização de Valter Hugo Mãe serão guias de nossa proposta de trabalho:
a história de duas irmãs gêmeas, uma que morre e a outra que não consegue viver e busca o amor como condição de vida.

 

Humanização

Só existe a beleza se existir interlocutor. A beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso partilhar. A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas na expectativa da reunião com o outro (p.12)

 

Narrar a desumanização, tema que nos convoca, só é possível, pois é da ordem de uma experiência que implica seu contrário, a humanização.

O encontro humanizador com o bebê se dá pelos cuidados de quem exercer a função materna, que implica subverter o instinto em pulsão.  A partir da intrusão sexualizante da mãe, o outro, que pela experiência de prazer-desprazer, amor e ódio instaura as vias da humanização (Bleichmar, 1993). O fazer-se humano constitui-se pela reflexividade no jogo do olhar – olhar-se – ser olhado que configura “um tempo fundante do aparelho psíquico do recalcamento originário, e dos destinos originários da pulsão”.  (Bleichmar, p.60). Sigmund Freud na Introdução ao narcisismo (1914), aponta que o auto-erotismo precede o narcisismo e que é no corpo que as experiências de prazer ocorrem e organizam os investimentos pulsionais e são simultaneamente estruturantes e defensivos. A nova ação psíquica – o recalcamento originário dá origem, assim, ao narcisismo do eu, primeiro modelo de amor a si mesmo, por isso chamado de narcisista.

Assim, há um tempo do vai e vem do objeto amoroso, presença e ausência como no jogo do fort/da e no olhar-se no espelho, aparecer e desaparecer da própria imagem, Freud (1920) que indica o sucesso de uma operação psíquica constitutiva. Mais tarde Lacan (1988) dirá que esta operação supõe uma hiância, uma brecha, momento em que a criança nasce para a linguagem e domina sua privação pela falta, ação de elaboração da imagem de si mesmo. A aquisição da linguagem e a integração da imagem de si apontam processos de ligação e a divisão do sujeito. Destaca que no jogo do vai e vem, que se mantem por um fio tem um elemento importante – “é uma coisinha do sujeito que se destaca embora ainda sendo bem dele que ele ainda segura no carretel”, modelo de desprendimento da criança de sua mãe, um pedaço de si, que se perde e se recupera num jogo de alternância, de repetição, divisão que o fort/da encena[1], “que é um aqui ou ali, e que só visa, em sua alternância, ser um fort de um da e o da de um fort. Um “eis aqui o perdido”, aquilo que, essencialmente, não está lá enquanto representado” (Lacan,p.63). Estes processos de ligação/desligamento dão origem ao sujeito psíquico, ser humanizado, não mais natural, mas inscrito no mundo da cultura. Marcam também um modelo de desligamento, quando a alternância não ocorre.

 

O trabalho de luto

 …todos que morrem levam consigo parte dos vivos. Enterramos muito em cada cova aberta. Morremos um pouco a cada pompa fúnebre (p.40).

 

Assim como a palavra mata a coisa, e dá acesso ao campo simbólico da fala, o luto exerce o corte entre quem morre e quem vive. Ao modelo do fort-da, os que morrem levam consigo uma parte dos vivos, os vivos guardam em si marcas da ligação com o objeto perdido. Freud (1915) refere que “nunca nos ocorre considerar o luto como um estado patológico (…) confiamos que ele será superado depois de algum tempo e consideramos inadequado e até mesmo prejudicial perturbá-lo” (p.47). Sendo assim o luto é necessário e esperado para se desprender do objeto amado morto, trazer de volta para o enlutado a “parte sua” que foi junto com o objeto perdido. Recompor-se psiquicamente que requer tempo e trabalho.

O trabalho do luto assim descrito tem como elemento importante a prova de realidade que mostra que o objeto amado já não existe mais e agora exige que toda a libido seja retirada de suas ligações com esse objeto (…) “uma a uma as lembranças e expectativas pelas quais a libido se ligava ao objeto são focalizadas e superinvestidas e nelas se realiza o desligamento da libido” (p.51). Por isso a dor psíquica é o trabalho de superinvestir e desinvestir, deixando as marcas do objeto perdido – morto em quem vive.

Já na melancolia, “um trabalho interno semelhante será a consequência da perda desconhecida [retirada da consciência] que consome seu ego” (p.53) (…) “encontra satisfação no autodesnudamento, na perda do autorespeito, que faz surgir uma perda no ego” (p. 55-57) e “coloca em destaque o desagrado moral com o próprio ego”. Resultado disso é que as “as auto-recriminações são recriminações contra um objeto de amor, a partir do qual se voltaram sobre o próprio ego” (p. 59). O ego se parte em duas partes que é a crítica do ego ao objeto e contra si mesmo em função da identificação com parte do objeto no próprio eu. Assim, diferente do luto, as recriminações e a identificação estão no eu. Ressalto que na tradução de Luto e Melancolia de Marilene Carone (2011) há uma nota que esclarece este ponto das auto recriminações onde há um jogo de palavras que foi mantido da tradução do alemão, pela tradutora, que é “queixar-se é dar queixa” (p.59) que literalmente refere-se: “suas queixas são acusações”. Klage significa queixa no sentido genérico e Anklage é dar queixa no sentido jurídico-policial, ou seja, no sentido da acusação pública.

Neste sentido, o processo do luto se apresenta nesta dupla direção: a queixa da dor da perda do objeto amado e uma queixa pública. Podemos localizar, assim, um outro sentido da condição do critério de realidade, o sentido do público. Ocorrem processos de luto impossíveis de se concluírem, uma vez que o critério de realidade esta desmentido. O não saber da morte, mantém o morto vivo. Como haver um trabalho de luto, com substituição do objeto, sem prova da realidade pública?

Voltamos para a perspectiva freudiana, quando nos diz que para a elaboração do luto existem dois caminhos: ou há respeito à realidade, sob a forma do luto normal ou depressão neurótica obsessiva; ou ocorre um desvio da realidade, que é a melancolia. Na perspectiva que aponto, o sujeito que perdeu e não tem acesso à prova de realidade dos ritos que dão reconhecimento público da perda – como não haver o corpo do morto ou o atestado de óbito – desvia-se o saber da verdade da perda. A hipótese possível, neste caso, é de uma variação do luto melancólico, a melancolização, reunião das duas formas de processos não exitosos do luto, e constituindo uma terceira forma. Há algo da realidade desmentido, quando os rituais frente à perda não se efetivam, quando ao trauma da perda se contrapõe negligência, irresponsabilidade pública, violência de Estado, políticas de morte. Situações que vivemos em vários tempos de nossa história, desde a colonização à pandemia quanto ao desrespeito e desvalor da vida, na omissão e mentira da verdade, no cotidiano de nossas cidades onde mães de jovens predominantemente negros e favelados são mortos pela polícia ou desaparecidos sem explicações, ou no contexto da pandemia atual o descaso pela vida: todas são formas de violência de Estado.

Queixar-se e dar queixa: acusações no campo individual e na esfera pública que produzem lutos infindáveis, sem substituição de objeto, sem que o sujeito possa se desprender e trazer de volta os pedaços de si. Antígona lutou para enterrar seu irmão, pois ele era único. Sabia que morreria por isso, mas percorreu o processo de luto como condição de uma ética. Como psicanalistas buscamos também recuperar a função pública, política e coletiva do luto. Pensar o luto como um processo intrapsíquico, requer incluir o traumático de situações em que a violência de Estado produz efeitos no sujeito psíquico e social, na lógica de “queixar-se é dar queixa”, ou seja, onde o Estado falta, se omite.

 

Desumanização: função pública, política e lutos coletivos

A desumanização nasce de um vazio fraternal. Roubavam-nos do que nos acontecia. Dizemos palavras para sentir que as coisas aparecem pela primeira vez (p.82)

 

Jean Allouch (2004), em seu livro Erótica do Luto, no Tempo da Morte Seca, apresenta uma discussão sobre a prova de realidade como condição do “trabalho do luto” do qual vou trazer um recorte para esta exposição: “por mais longe que o luto possa tomar apoio na realidade, ela é aquilo cujo enfraquecimento o luto revela, dando ao morto o estatuto não de um inexistente, mas de um desaparecido (p.121)  (…) “se houver luto, o enlutado passará da experiência de um ser querido ao reconhecimento de sua inexistência. Essa inexistência não pode, como tal, estar no começo do luto, ela só pode ser admitida, se tiver que sê-lo, se o for, no final do luto” (p.126). Sendo assim o autor propõe uma torção ao trabalho do luto: o reconhecimento da inexistência do morto como critério de realidade não é o ponto de partida do trabalho do luto (como afirma Freud), mas sim seu desfecho. O aniquilamento da existência do morto e não a realidade da morte é o ponto de chegada do luto[2], por isso o luto é sempre traumático e sua elaboração se efetiva no après-coup nem sempre com possibilidade de substituição.

Assim, apresentamos duas situações da importância do critério de realidade: quando a existência do morto é desmentida, ocultada, ou desrespeitada, o luto não se processa. Quando o sujeito reconhece a inexistência do morto para si, há o desfecho do luto e o desprendimento cria a condição de nova escolha de objeto de amor. Estas reflexões são importantes frente as situações de nosso tempo – pandêmico/traumático/violento. Como fazer trabalhar os efeitos de processos de melancolização senão como ritos coletivos, cumprindo o ritual a função de um critério de realidade. Dois exemplos para ilustrar esta hipótese de trabalho. No período da ditadura civil-militar brasileira diante da prática do desaparecimento forçado, o sujeito era morto por tortura e dado como desaparecido para os familiares e para a sociedade. Prática antiga, também utilizada no regime nazi-fascista, onde a máxima “fazer desaparecer a morte pelo silêncio” que foi amplamente utilizada, por ocasião dos campos de extermínios.

Como realizar o luto frente ao desaparecimento desmentido do objeto amado? O movimento das Mães e Avós da Praça de Maio na Argentina foi o coletivo que iniciou publicamente a exigir resposta ao governo militar pelo paradeiro de seus filhos e netos dando voltas na frente da Casa Rosada, sede do governo. Caminhavam por que uma ordem pública impedia de ficarem ali paradas por horas. Então caminhavam, como ato de resistência. Durante 44 anos “deram queixa” de seus lutos.  Hoje são 130 netos recuperados. Lutos melancólicos que buscaram um trâmite psíquico, no espaço público, recuperando a morte como fato social. A cada neto encontrado, todas estas mulheres abriam uma via simbólica de processar suas próprias perdas, através da identificação coletiva. E hoje, ao retornar um governo democrático na Argentina, também passaram a lutar pela legalização do aborto. Depois de 44 anos pela primeira vez deixaram de caminhar por causa da pandemia, mas trouxeram ao mundo suas histórias, garantiram a memória, a verdade e a justiça, como condições de elaboração simbólica. Obtiveram respostas a suas queixas uma vez que comprometeram o Estado enquanto responsável pelo “desaparecimento” de seus filhos e netos e romperam um caminho de melancolização através de um trabalho coletivo.

E eram chamadas de loucas!

Na segunda ilustração temos um percurso distinto através do recorte de uma coluna da jornalista Eliane Brum (2020) como ilustração.

O procurador da República em Boa Vista busca informações sobre o paradeiro dos corpos dos bebês, que morreram de COVID e não tiveram seus corpos entregues a suas mães, devido aos protocolos de biossegurança.[3] Os Yanomami não são enterrados e há um longo ritual para que o morto possa morrer para si e para a comunidade. Um Yanomami se compreende como parte de uma comunidade e se entrelaça com várias dimensões de mundos visíveis e invisíveis (mediadas por xamãs). Várias aldeias vão até a comunidade do morto para participar da cremação. As cinzas então são guardadas. Meses depois haverá a segunda parte, os visitantes retornam e o morto então será lembrado para então poder ser esquecido, suas marcas serem apagadas e a comunidade seguir adiante. No último ato, as cinzas dos mortos são diluídas em mingau de banana para que aquele que morreu se dissipe no corpo de todos. O ritual faz o morto morrer também como memória, para que os vivos possam viver. Se o ritual não for realizado, o morto não poderá ser esquecido nem se deixará esquecer, o que provoca muito mal a seus parentes e a toda a comunidade. O rito é coletivo e no final há apenas um morto, o que morreu —e não vivos que seguem mortos por não terem sido capazes de fazer o luto, como acontece tantas vezes no mundo dos brancos, que já não têm tempo nem espaço para fazer a transmutação da falta em ausência. Enterrar o corpo de um morto é um horror absoluto para o povo Yanomami.

Nesse texto-denúncia, chamo atenção para o fato de que não só o morto não será esquecido, mas que há um mandato de que os vivos não tenham direito à vida, como sentença de uma queixa acusatória sem resposta. Para essas mães, saber que seus filhos estão enterrados no cemitério da cidade é equivalente a mãe que convive com a dor de que o corpo de seu filho desaparecido não foi enterrado, pode estar em uma vala comum, ou incinerado, ou jogado ao mar, sem realidade de existência. Lutos que se arrastam sem direito e condição de elaboração, que se tornam uma pena a quem perdeu e não uma responsabilização frente ao descaso e à violência de Estado.

Os rituais coletivos da morte então cumprem a função de um trabalho do luto, pois representam o objeto essencialmente perdido. Produzem a quebra do silêncio sobre as condições da morte, abrem vias de transmissão coletiva. Todos os mortos têm nome. Os rituais respeitam as tradições e são condições de sobrevivência dos povos. Ressalto então que a função pública do luto é uma ética, condição de elaboração de lutos como ritos coletivos, quando o Estado, em seu excesso de presença ou em sua omissão, assume uma política de morte.

 

Re-humanização

Queria proteger contra o esquecimento. A maior vulnerabilidade do humano, a contingência de não lembrar e de não ser lembrado (p.162).

   

Recuperar a amnésia histórica coletiva, desfazer o desmentido e romper o silêncio frente à violência de Estado, abrem a criação de ações coletivas, respeito aos rituais quem mantém as tradições dos povos, e constituem vias substitutivas para a re-humanização. Tornam-se alternativas de elaboração de luto e não de melancolização. Não poderia deixar de apontar a parcela de contribuição da Sigmund Freud Associação Psicanalítica nestas situações através do SIG Intervenções Psicanalíticas e do Coletivo Testemunho e Ação. Em cada um destes espaços desenvolvemos projetos coletivos: no primeiro para os educadores de escolas e com mulheres abrigadas por violência doméstica. Através de uma convocatória de que enviassem cartas (na forma atual substituída por e-mail), trabalhadas coletivamente como forma de sustentar as perdas e o compartilhamento da angústia frente ao isolamento social. No segundo, o Coletivo Testemunho e Ação, através do testemunho, dar palavra ao silêncio da história, nas situações de repetição da violência de Estado.  Através dos encontros públicos é criado um espaço para o testemunhar através das histórias de vida, livros, documentários, poesias que encontram na posição de escuta do outro um lugar de registro da memória no tempo da posterioridade. Alternativas de recomposição psíquica e da história nas dimensões individual e coletiva.


Referências

ALLOUCH, J. Erótica do Luto. No Tempo da Morte Seca. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2004.

BLEICHMAR, S. Nas Origens do Sujeito Psíquico. Do mito à história. Porto Alegre: Artes Médica, 1993.

FREUD, S. Introducción del narcicisimo. In: Obras Completas: vol.XIV. Buenos Aires: Amorrortu, 1990.

___________Más allá del principio de placer. In: Obras Completas: vol. XVIII. Buenos Aires: Amorrortu, 1990.

__________ Luto e Melancolia. Tradução, introdução e notas: Marilene Carone. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

LACAN, J. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. O Seminário. Livro 11. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.

MÃE, V.H.  A Desumanização. São Paulo: Biblioteca Azul, 2017.


[1] fort (em alemão, “partiu”) e que “aah” significava da (eis aí/aqui).

[2] Com isso também indicamos dois fatores importantes nesta leitura: o caráter sempre traumático do luto e seu tempo de elaboração no après-coup. Importante marcar que Luto e Melancolia é escrito em plena guerra e na ruptura com Jung e se inscreve entre dois tempos: no abandono da teoria do traumático como realidade factual e o traumático como inscrição de excesso do externo, que gera efeitos internos. Freud de certa forma antecipa o que irá descrever em 1921, no Além do princípio do prazer, onde retoma o traumático como destrutividade.

[3] Eliane Brum, reportagem intitulada Mães Yanomami imploram pelos corpos de seus bebês. EL País, em 24 de junho de 2020.


*Este artículo fue publicado en SIG Revista de Psicanálise Ano 9. Número 2. Julho / Dezembro 2020.

Compartir: